Blogueiro que criticava políticos em Santa Catarina é “suicidado?”

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.” – George Orwell

Ao contrário do que diz seu slogan, o blog foi calado sim.

O polêmico blogueiro Amilton Alexandre, conhecido como Mosquito, foi encontrado enforcado em seu apartamento, em Florianópolis (SC) nesta terça-feira, 12 de dezembro. Conhecido pelas suas críticas ácidas aos políticos da região, Amilton sofria 50 processos de injuria e difamação. Por outro lado, ele havia registrado 25 boletíns de ocorrência de ameaças de morte.  O caso está sendo tratado inicialmente como suicídio, mas a polícia não descarta outras hipóteses. Seu último post mostrava desalento:

Tanta dedicação ao blog levou-me a um isolamento familiar, com oposição a minha atividade, problemas de saúde e outras dificuldades. Nas últimas semanas acusei o nocaute. Não tenho mais como enfrentar as ameaças e retalizaçãoes pelo que publico. É sensato dar um tempo“.

Essa declaração é justificada por alguns como uma carta de despedida de um pré-suicida. Ou momento oportuno para um desafeto “suicidar” alguém. Dificilmente o inquérito policial chegará a verdade, por falta de evidências. Mosquito provou do remédio ingrato que faz parte da vida jornalistas combativos: ameaças que não se concretizam e ameaças que se concretizam. O assassinato é sempre notícia. Jornalistas comuns que sofrem ameaças de todos os tipos geralmente ficam anônimos. Com bloqueiros, jornalistas ou não, o fenômeno se repete.

Mosquito nem jornalista era.  Mas ajudou a tornar público ou mostrar a indignação pública perante a corrupção. Não precisa ser jornalista para isso. Entretanto, existem limites entre xingar um político de filho-da-puta e ladrão numa conversa de bar e colocar esses adjetivos na internet. O blog tijoladas do mosquito  (na verdade um site) chegou a ficar fora do ar e o autor continuava sua saga no twitter. Seu conterrâneo e também bloqueiro crítico, o jornalista Sérgio Rubim, declarou em seu cangablog que “todas as pessoas que o Mosquito acusou de corruptos, eram corruptos. Nunca houve uma acusação falsa, sempre provou. Acabava sendo processado por usar palavras ofensivas, sua marca registrada”. E continha na defesa da tese do colega, com doses de possível exagero e elementos de teoria da conspiração: ” São criminosos organizados que há muito tomaram o poder e controlam as instituições públicas, desde a justiça até a prefeitura local. São perigosos e não hesitam em exercer a sua força, inclusive física. Uma grande parte destes criminosos pertence à Maçonaria e usam suas reuniões secretas para planejar seus crimes. O Tribunal de Contas do Estado e o Ministério Público junto ao TCE seriam um dos ninhos mais fortes desta quadrilha. Amilton Alexandre, o Mosquito, vinha trabalhando nessa linha de investigação. O que conseguiu apurar especificamente sobre isso talvez esteja no HD de sua máquina/metralhadora/giratória, neste momento em mãos do delegado de polícia da Palhoça. Tenho audiência marcada com o delegado e espero acompanhar a perícia no HD do seu computador.

Mais opiniões sobre o Mosquito no Cangablog: “O blogueiro, apesar de muitas vezes advertido, carregou nas tintas contra os políticos. Passou dos limites em alguns casos. Claro, colheu processos e condenações, aos quais recorre.   Mas contribuiu para tentar sanear a política catarinense. Não foram poucos os assuntos tratados aqui  transformados em inquéritos no Ministério Público e ações civis públicas.   Quem achou que havia financiamento de grupos interessados em obter vantagens com o que era publicado aqui, se enganou”.

Mosquito e o jornalista Paulo Henrique Amorim num café filosófico em Florianópolis.

Mosquito colecionou desafetos. Uma de suas mais famosas denúncias envolveu um filho de um influente empresário de comunicação da região, que teria cometido estupro contra uma menina de 13 anos, de acordo com o site Surgiu, e denúncias sobre outros políticos da regiao com cargos no governo federal.

A metralhadora de denúncias para tudo que é lado é logo qualificada pela turma dos panos quentes de “denuncismo”, principalmente quando as balas são de baixo calão. Talvez ele tenha errado alguns alvos, outros acertou mas não provou. Essa é a diferença da apuração do jornalista X blogueiro. E a diferença também entre o cidadão passivo e o que protesta. E entre cidadão com uma indignação justa ou não que parte para a violência verbal ou física e aquele que busca a via democrática e da justiça.  A fronteira entre um extremo e outro ainda é um desafio para a liberdade de expressão.

Anúncios

0 Responses to “Blogueiro que criticava políticos em Santa Catarina é “suicidado?””



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




O Autor

João Marcos Rainho, jornalista brasileiro, 25 anos de experiência, autor do livro Jornalismo Freelance

Contato

jmrainho@agenciapublisher.com

Site

www.agenciapublisher.com

Twitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 11 outros seguidores


%d blogueiros gostam disto: